Hormônios e Menopausa
Testosterona baixa no homem: sintomas e quando repor
Por Dra. Karline Campos, endocrinologista · 10 min de leitura
Testosterona baixa no homem, ou hipogonadismo masculino, é a produção insuficiente do hormônio pelos testículos, com sintomas como queda de libido, disfunção erétil, cansaço, perda de massa muscular, aumento de gordura abdominal e humor deprimido. O diagnóstico exige sintomas mais duas dosagens de testosterona pela manhã abaixo da referência. A reposição é indicada quando esses dois critérios estão presentes e não há contraindicação. Usar testosterona sem essa indicação traz riscos reais e não é recomendado.
Em resumo
- Sintomas: libido baixa, ereção fraca, cansaço, perda de músculo e força, gordura abdominal, irritabilidade, humor baixo, menos pelos, anemia leve.
- Diagnóstico: sintomas compatíveis e testosterona total baixa em pelo menos duas coletas pela manhã, em jejum, com dosagem de LH, FSH e outros exames.
- Causas comuns: obesidade, diabetes, apneia do sono, uso prévio de anabolizantes, medicações, doenças dos testículos ou da hipófise, envelhecimento.
- Reposição é indicada quando há sintomas e testosterona confirmadamente baixa. Não é indicada para fins estéticos, "energia" ou performance em quem tem níveis normais.
- Quem repõe precisa de acompanhamento: hematócrito, PSA, exame da próstata, lipídios e avaliação de fertilidade, porque a reposição reduz a produção de espermatozoides.
O que a testosterona faz no corpo do homem
A testosterona é produzida principalmente nos testículos sob comando da hipófise, por meio dos hormônios LH e FSH. Ela regula:
- Libido e função erétil.
- Massa e força muscular.
- Distribuição de gordura, com efeito de reduzir a gordura abdominal.
- Densidade óssea.
- Produção de glóbulos vermelhos.
- Humor, energia, concentração e motivação.
- Pelos corporais e barba.
- Produção de espermatozoides.
Os níveis atingem o pico no fim da adolescência e no início da vida adulta e caem lentamente a partir dos 30 a 40 anos, em torno de 1% ao ano. Essa queda é gradual e, na maioria dos homens saudáveis, não causa sintomas. O hipogonadismo é diferente: os níveis caem abaixo do normal e os sintomas aparecem.
Sintomas de testosterona baixa
Sexuais (os mais específicos):
- Queda da libido, do interesse e das fantasias sexuais.
- Disfunção erétil, com ereções menos firmes e menos ereções espontâneas pela manhã.
- Redução do volume dos testículos.
Físicos:
- Perda de massa e força muscular, apesar de treinar.
- Aumento de gordura abdominal.
- Cansaço, falta de energia.
- Redução de pelos corporais e da barba.
- Ginecomastia (aumento das mamas).
- Anemia leve.
- Ondas de calor (em quedas mais intensas).
- Perda de massa óssea, com risco de fratura no longo prazo.
Psicológicos:
- Humor deprimido, irritabilidade.
- Dificuldade de concentração e memória.
- Falta de motivação.
Nenhum desses sintomas é exclusivo da testosterona baixa. Cansaço e desânimo, por exemplo, são causados com muito mais frequência por sono ruim, depressão, hipotireoidismo, obesidade e estresse. Por isso o exame é indispensável.
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Como é feito o diagnóstico
As diretrizes da Endocrine Society são claras: o diagnóstico de hipogonadismo exige sintomas compatíveis e níveis baixos confirmados. Um exame isolado não basta.
Como o exame deve ser feito:
- Testosterona total dosada pela manhã, entre 7h e 10h, quando os níveis estão mais altos.
- Em jejum, porque a alimentação reduz temporariamente a testosterona.
- Fora de doença aguda, estresse intenso ou privação de sono, que baixam os níveis de forma transitória.
- Repetida em uma segunda coleta, porque a variação entre dias é grande.
- O limite usado pela maioria das diretrizes fica em torno de 300 ng/dL, com variação conforme o laboratório e o método.
Exames complementares:
- Testosterona livre ou calculada e SHBG (a proteína que transporta o hormônio), importantes em homens com obesidade, diabetes ou idosos, em que a testosterona total pode enganar.
- LH e FSH. Ajudam a saber se o problema é nos testículos (hipogonadismo primário, com LH e FSH altos) ou na hipófise (secundário, com LH e FSH baixos ou normais).
- Prolactina, quando o LH está baixo.
- Hemograma, PSA, glicose, insulina, perfil lipídico, TSH, vitamina D, para avaliar causas e preparar a decisão de tratamento.
- Avaliação de composição corporal com Evolt 360, que mostra a massa muscular por segmento e a gordura visceral, dois marcadores que a testosterona influencia e que servem de linha de base para acompanhar o tratamento.
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Causas de testosterona baixa
Causas reversíveis ou tratáveis (as mais comuns hoje):
- Obesidade e gordura visceral. O tecido gorduroso converte testosterona em estrogênio e reduz a produção. É a causa mais frequente em homens jovens e de meia-idade. Emagrecer aumenta a testosterona.
- Diabetes tipo 2 e resistência à insulina.
- Apneia do sono. Reduz a produção noturna do hormônio.
- Uso prévio de anabolizantes. Suprime a produção própria, às vezes por muito tempo.
- Medicações: opioides, corticoides, alguns antidepressivos e antifúngicos.
- Álcool em excesso.
- Estresse crônico e privação de sono.
Causas de doença:
- Problemas testiculares: orquite, trauma, quimioterapia, síndrome de Klinefelter.
- Problemas da hipófise: tumores, prolactinoma, hemocromatose.
- Envelhecimento com queda abaixo do normal (hipogonadismo de início tardio).
Quando repor e quando não repor
A reposição é indicada quando:
- Há sintomas compatíveis, principalmente sexuais.
- A testosterona está confirmadamente baixa em duas coletas adequadas.
- As causas reversíveis foram avaliadas e, quando possível, tratadas.
- Não há contraindicação.
- O homem entende os benefícios, os riscos e a necessidade de acompanhamento.
A reposição não é indicada quando:
- A testosterona está normal, mesmo com sintomas. Nesse caso, a causa dos sintomas é outra.
- O objetivo é estético, ganho de músculo ou desempenho esportivo. O Conselho Federal de Medicina proíbe a prescrição de testosterona e outros androgênios para essas finalidades (Resolução CFM 2.333/2023).
- Há câncer de próstata ou de mama ativos.
- Há desejo de ter filhos no curto prazo, porque a reposição reduz ou zera a produção de espermatozoides. Existem alternativas nesse caso.
- Há hematócrito muito elevado, insuficiência cardíaca descompensada ou apneia grave não tratada.
- Há PSA elevado sem investigação ou nódulo prostático não avaliado.
Em homens com obesidade e testosterona no limite, o tratamento da obesidade costuma ser o primeiro passo, e muitas vezes normaliza o hormônio sem reposição.
Riscos do uso sem indicação
O uso de testosterona por conta própria, ou prescrito “para dar energia” a quem tem níveis normais, é comum e perigoso:
- Supressão da produção própria. O corpo para de produzir; ao interromper, a pessoa fica com níveis mais baixos do que tinha antes, às vezes por meses ou anos.
- Infertilidade, por parada da produção de espermatozoides.
- Aumento do hematócrito (sangue mais espesso), com risco de trombose e AVC.
- Atrofia dos testículos.
- Ginecomastia, pela conversão em estrogênio.
- Acne, queda de cabelo e alterações de humor.
- Piora da apneia do sono.
- Efeitos cardiovasculares em doses altas, principalmente com produtos irregulares.
- Crescimento de um câncer de próstata não diagnosticado.
Como é o acompanhamento de quem repõe
A reposição, quando indicada, é feita com preparações aprovadas (gel, injeções) em doses fisiológicas, com o objetivo de trazer a testosterona para a faixa normal, não acima dela. O acompanhamento inclui:
- Revisão dos sintomas em 3 a 6 meses.
- Testosterona, hematócrito e PSA no início, a cada 3 a 6 meses no primeiro ano e depois anualmente.
- Exame da próstata conforme a idade.
- Perfil lipídico e glicose.
- Composição corporal, para acompanhar músculo e gordura visceral.
- Densitometria, se houver perda óssea.
Quando procurar uma endocrinologista
- Você tem queda de libido, ereções mais fracas ou menos ereções matinais.
- Sente cansaço, desânimo e perda de motivação sem explicação.
- Perdeu força e músculo apesar de treinar.
- A gordura se acumulou no abdômen.
- Tem obesidade, diabetes ou apneia do sono.
- Já usou anabolizantes.
- Fez um exame de testosterona e o resultado veio baixo ou "no limite".
- Está usando testosterona sem acompanhamento e quer avaliar a situação com segurança.
Como a Dra. Karline Campos conduz isso na prática
Muitos homens chegam ao meu consultório trazidos pela esposa, depois que ela começou a cuidar dos próprios hormônios. Outros chegam com um exame único de testosterona e uma receita pronta de alguém que nem examinou. Eu começo do zero: sintomas, sono, peso, medicações, histórico de anabolizantes. Peço a testosterona da forma certa, pela manhã, em jejum, duas vezes, com LH, FSH, SHBG e os exames de segurança. Faço a avaliação de composição corporal com Evolt 360 para ver músculo e gordura visceral. Se a causa for obesidade ou apneia, tratamos isso primeiro. Se houver indicação real de reposição, ela é feita com dose fisiológica e acompanhamento regular. Se não houver, eu digo, e procuramos a causa verdadeira dos sintomas. Atendo poucos pacientes por dia para fazer isso com cuidado, nas unidades de Campo Grande, Barra da Tijuca e Recreio, no Rio de Janeiro, e em Indaiatuba, em São Paulo.
Dra. Karline Campos, endocrinologista · CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357
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Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de testosterona baixa no homem?
Queda de libido, ereções mais fracas, cansaço, perda de massa muscular, aumento de gordura abdominal, humor deprimido e dificuldade de concentração. Os sintomas sexuais são os mais específicos; os demais têm muitas outras causas.
Qual o valor normal de testosterona?
A maioria das diretrizes considera baixa a testosterona total abaixo de cerca de 300 ng/dL, dosada pela manhã e em jejum, com variação conforme o laboratório. Um único resultado não fecha diagnóstico; é preciso repetir e interpretar com sintomas, testosterona livre e SHBG.
Reposição de testosterona causa câncer de próstata?
Não há evidência de que a reposição em doses fisiológicas cause câncer de próstata em homens sem a doença. Mas ela pode estimular o crescimento de um câncer já existente, por isso o PSA e o exame da próstata fazem parte da avaliação antes e durante o tratamento.
Testosterona baixa tem cura?
Depende da causa. Quando é consequência de obesidade, apneia do sono ou medicações, tratar a causa costuma normalizar os níveis. Quando há doença dos testículos ou da hipófise, a reposição é contínua.
Emagrecer aumenta a testosterona?
Sim. A gordura abdominal reduz a testosterona e a converte em estrogênio. A perda de peso, principalmente de gordura visceral, eleva os níveis de forma consistente em homens com obesidade.
Posso usar testosterona para ganhar músculo?
Não. A prescrição de testosterona para fins estéticos ou de desempenho é proibida pelo Conselho Federal de Medicina e traz riscos: infertilidade, supressão da produção própria, sangue espesso e problemas cardiovasculares. A reposição é tratamento de doença, não de estética.
Referências
- Bhasin S et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023 (prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes).
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Materiais sobre deficiência androgênica do envelhecimento masculino.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Resultados variam de pessoa para pessoa.
Neste artigo
Dra. Karline Campos
Endocrinologista titulada pela AMB. CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357
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A Dra. Karline Campos avalia seus sintomas, pede os exames da forma correta e conduz a reposição só quando há indicação, com o acompanhamento que o tratamento exige.