Início  /  Blog  /  Hormônios e Menopausa

Hormônios e Menopausa

Terapia hormonal na menopausa e câncer de mama: o que a ciência diz

Por Dra. Karline Campos, endocrinologista · 10 min de leitura

A relação entre terapia hormonal da menopausa e câncer de mama é real, mas muito menor e mais dependente do contexto do que o medo popular sugere. O estudo WHI, de 2002, mostrou um pequeno aumento de risco com uma combinação específica de hormônios em mulheres que começaram tarde. As análises posteriores mostraram que o tipo de hormônio, a via, a duração e a idade de início mudam essa conta, e que, para muitas mulheres, os benefícios superam os riscos. A decisão precisa ser individual.

Em resumo

De onde vem o medo: o estudo WHI

Em 2002, o Women’s Health Initiative (WHI), um grande estudo americano, interrompeu um de seus braços antes do previsto. Mulheres que usavam estrogênio conjugado oral combinado a um progestagênio sintético (acetato de medroxiprogesterona) apresentaram mais casos de câncer de mama, trombose e eventos cardiovasculares do que as que usavam placebo.

A notícia correu o mundo. Milhões de mulheres pararam a terapia hormonal de um dia para o outro, e uma geração de médicos passou a evitá-la.

O que ficou menos divulgado:

O que as reanálises mudaram

Nas duas décadas seguintes, o próprio grupo do WHI e outros pesquisadores revisaram os dados e conduziram novos estudos. Os pontos que mudaram a prática:

1. A idade de início importa. Quando a terapia começa antes dos 60 anos ou nos primeiros 10 anos após a menopausa, a chamada “janela de oportunidade”, o balanço de benefícios e riscos é favorável para a maioria das mulheres com sintomas. O risco cardiovascular observado no WHI concentrou-se nas mulheres que começaram tarde.

2. O tipo de progestagênio importa. Estudos observacionais europeus, entre eles a coorte francesa E3N, sugerem que a combinação de estrogênio com progesterona micronizada (idêntica à do ovário) está associada a risco de câncer de mama menor do que com progestagênios sintéticos, pelo menos nos primeiros anos de uso. São dados de observação, não de estudo randomizado, e por isso são interpretados com cautela, mas apontam na mesma direção.

3. A via de administração importa para trombose. O estrogênio pela pele (gel ou adesivo) não aumenta o risco de trombose venosa da forma como o comprimido oral aumenta, porque não passa pela primeira passagem hepática. Isso não muda o risco de mama, mas muda a segurança geral.

4. A duração importa. O risco associado à terapia combinada tende a crescer com o tempo de uso, principalmente após cinco anos. Isso não impede o uso prolongado, mas exige reavaliação periódica.

5. O risco é reversível. Após a interrupção, o pequeno excesso de risco diminui ao longo dos anos seguintes.

Vídeo da Dra. Karline Campos

Se você tem uma mulher entre 35 e 55 anos na sua vida, esse vídeo é para você

Assista aqui mesmo, sem sair do artigo.

Colocando o risco em perspectiva

Uma forma honesta de entender o número do WHI é compará-lo com outros fatores conhecidos de risco para câncer de mama. Os estudos populacionais mostram que:

Isso não serve para minimizar o risco da terapia hormonal. Serve para mostrar que ele está na mesma ordem de grandeza de escolhas cotidianas, e que uma mulher que usa terapia hormonal e, ao mesmo tempo, emagrece, treina e reduz o álcool pode terminar com risco global menor do que antes.

Quer entender o seu caso com uma endocrinologista?

Quem não deve fazer terapia hormonal

Existem contraindicações claras, e nenhuma individualização muda isso:

Existem também situações que exigem cautela extra e avaliação caso a caso: histórico familiar forte de câncer de mama, mutações genéticas como BRCA, mamas densas, histórico de trombose antiga com fator de risco corrigido, enxaqueca com aura.

Para mulheres com contraindicação, os sintomas da menopausa têm tratamentos não hormonais eficazes. Ninguém precisa “aguentar”.

Como individualizar a decisão

Individualizar significa responder, com dados, a estas perguntas:

  1. Quais são os sintomas e quanto eles pesam? Ondas de calor moderadas a intensas, sono destruído, sintomas genitourinários e perda óssea são indicações fortes.
  2. Qual é a idade e há quanto tempo veio a menopausa? Dentro da janela de oportunidade, o balanço tende a ser favorável.
  3. Qual é o risco basal de câncer de mama? Histórico familiar, densidade mamária, biópsias anteriores, obesidade, álcool.
  4. Qual é o risco cardiovascular e de trombose? Pressão, colesterol, glicose, tabagismo, histórico de trombose.
  5. Há útero? Se sim, a progesterona é obrigatória para proteger o endométrio; se não, o estrogênio isolado tem perfil de mama mais tranquilo.
  6. Qual combinação, via e dose fazem mais sentido? Em geral, estradiol pela pele com progesterona micronizada, na menor dose eficaz.
  7. Qual é o plano de acompanhamento? Mamografia anual, exame clínico das mamas, revisão dos sintomas e da necessidade de manter a terapia.

Ao lado desse raciocínio, tratar a saúde metabólica é parte da estratégia. Na clínica, a avaliação de composição corporal com Evolt 360 ajuda a acompanhar a gordura visceral e o músculo, dois fatores que também influenciam o risco de câncer e de doença cardiovascular.

O que dizer para a mulher com medo

Ter medo é razoável. O que não é razoável é decidir com base em um estudo de 2002 lido pela manchete. A ciência avançou, os hormônios usados mudaram, e a decisão hoje é feita com muito mais informação.

Não existe resposta universal. Para algumas mulheres, a terapia hormonal é uma decisão de saúde com benefícios claros. Para outras, o risco não compensa, ou existe contraindicação. Descobrir em qual grupo você está é o trabalho da consulta.

Quando procurar uma endocrinologista

Como a Dra. Karline Campos conduz isso na prática

Eu não indico nem contraindico terapia hormonal de longe. Preciso da sua história completa: sintomas, idade, tempo de menopausa, histórico familiar, mamografia, exames metabólicos. Faço a avaliação de composição corporal com Evolt 360, porque gordura visceral e massa muscular fazem parte da equação de risco, e reviso seus exames de sangue com atenção a colesterol, glicose e insulina. Só então conversamos sobre tipo de hormônio, via, dose e tempo, com os prós e contras do seu caso na mesa. Se a decisão for não usar, saímos com um plano não hormonal. Esse cuidado exige tempo, por isso atendo poucos pacientes por dia, nas unidades de Campo Grande, Barra da Tijuca e Recreio, no Rio, e em Indaiatuba, em São Paulo.

Dra. Karline Campos, endocrinologista · CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357

No canal da Dra. Karline Campos

Menopausa não precisa ser sinônimo de sofrimento

Assistir no YouTube

Perguntas frequentes

A terapia combinada de estrogênio com progestagênio, em uso prolongado, está associada a um pequeno aumento de risco. O estrogênio isolado, em mulheres sem útero, não mostrou esse aumento. O risco depende do tipo de hormônio, da idade de início e da duração, e é comparável a fatores como obesidade e álcool.

Não. Câncer de mama prévio é contraindicação à terapia hormonal sistêmica. Existem opções não hormonais para os sintomas e, em casos selecionados, tratamento vaginal local pode ser discutido com o oncologista.

Para trombose, sim: a via transdérmica não aumenta o risco da mesma forma que a oral. Para câncer de mama, a via não parece mudar o risco; o que importa mais é o tipo de progestagênio e a duração.

Não existe prazo máximo fixo. A recomendação atual é usar enquanto os benefícios superarem os riscos, com reavaliação pelo menos anual. Muitas mulheres usam por vários anos com segurança; outras preferem reduzir depois que os sintomas se estabilizam.

Não impede automaticamente. Aumenta o risco basal e exige avaliação mais cuidadosa, às vezes com aconselhamento genético. A decisão é conjunta, com mamografia em dia e acompanhamento mais próximo.

Estradiol e progesterona micronizada, disponíveis em farmácias, são estruturalmente idênticos aos hormônios humanos e têm perfil de segurança bem estudado. Fórmulas manipuladas “bioidênticas” sem controle de dose não têm a mesma evidência e não são recomendadas pelas sociedades médicas.

Referências

Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Resultados variam de pessoa para pessoa.

Neste artigo

Dra. Karline Campos

Endocrinologista titulada pela AMB. CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357

Quer decidir sobre terapia hormonal com dados, não com medo?

A Dra. Karline Campos analisa sua história, seus exames e sua composição corporal para conversar sobre os riscos e benefícios do seu caso, com transparência.

Em qual unidade você prefere fazer a consulta?

A equipe da unidade responde pelo WhatsApp em horário comercial.