Saúde integrativa
Suplementos: quando fazem sentido e quando são desperdício
Por Dra. Karline Campos, endocrinologista · 7 min de leitura
Vitamina D, colágeno, ômega-3, magnésio, “blend” para energia, cápsula para emagrecer. A lista de suplementos no armário de muita gente só cresce, quase sempre sem exame e sem indicação. Alguns suplementos fazem diferença real em situações específicas. Outros são desperdício de dinheiro, e alguns podem fazer mal. Neste artigo, você entende como separar uma coisa da outra.
Em resumo
- Suplemento faz sentido quando existe uma deficiência comprovada ou uma situação específica que aumenta a necessidade.
- Tomar "para garantir" não melhora a saúde de quem já tem níveis adequados e pode causar excesso.
- Vitamina D e ferro em excesso podem causar problemas sérios.
- Suplementos interagem com remédios e podem alterar resultados de exames, como os da tireoide.
- Suplementos vendidos "para emagrecer" não têm evidência de eficácia, e alguns produtos irregulares já foram alvo de alertas da ANVISA.
O que é suplemento, afinal
No Brasil, os suplementos alimentares são regulados pela ANVISA, que define quais ingredientes podem ser usados, em que quantidades e quais alegações podem aparecer no rótulo. Isso não significa que todo suplemento vendido seja necessário, nem que funcione para o que promete. Significa apenas que existe uma regra para o produto ser comercializado.
Suplemento também não é remédio. Ele serve para complementar a alimentação quando ela não dá conta de uma necessidade, e não para tratar doenças por conta própria.
Quando o suplemento faz sentido
Deficiência comprovada
É a situação mais clara. Quando um exame mostra uma deficiência, como de vitamina B12, ferro ou vitamina D, a reposição tem indicação, com dose e tempo definidos. Depois, os níveis são reavaliados.
Situações que aumentam a necessidade
Alguns grupos têm risco maior de deficiência e podem precisar de suplemento, mesmo antes de o exame alterar, dependendo do caso:
- Gestantes e mulheres que planejam engravidar: o ácido fólico é recomendado antes e no início da gestação para reduzir o risco de defeitos no tubo neural do bebê.
- Pessoas com alimentação vegetariana estrita ou vegana: a vitamina B12 praticamente só existe em alimentos de origem animal.
- Quem fez cirurgia bariátrica: a absorção de várias vitaminas e minerais muda, e a suplementação costuma ser contínua.
- Uso prolongado de metformina ou de remédios que reduzem a acidez do estômago: podem reduzir a absorção de B12.
- Idosos com pouca exposição ao sol ou alimentação pobre em proteína: podem precisar de ajustes específicos.
Quando a alimentação não alcança a meta
Em alguns casos, como na necessidade de mais proteína para preservar músculo durante o emagrecimento, um suplemento pode ajudar a atingir a meta quando a comida sozinha não dá conta. Ele complementa, não substitui.
Vídeo da Dra. Karline Campos
Como funciona a primeira consulta com a Dra. Karline Campos
Assista aqui mesmo, sem sair do artigo.
Quando é desperdício
- Tomar multivitamínico "para garantir" sem deficiência e com alimentação variada.
- Usar suplementos para "energia" sem investigar a causa do cansaço.
- Combinar vários produtos com os mesmos ingredientes, sem perceber que a dose total ficou alta.
- Seguir listas prontas de influenciadores, iguais para todo mundo.
Um grande estudo americano com milhares de adultos, por exemplo, não mostrou redução de câncer ou de doença cardiovascular com vitamina D em pessoas sem deficiência. E a diretriz de 2024 da Endocrine Society não recomenda dosar vitamina D de rotina em adultos saudáveis com menos de 75 anos.
Quer entender o seu caso com uma endocrinologista?
Os riscos do excesso
Vitamina D
Em doses altas e por tempo prolongado, a vitamina D pode aumentar o cálcio no sangue, causando náuseas, sede, alteração da função dos rins e cálculos renais. Ela se acumula no corpo, por isso “mais” não significa “melhor”.
Ferro
Tomar ferro sem necessidade pode causar desconforto no estômago, intestino preso e, em pessoas predispostas, acúmulo de ferro nos órgãos. Existe uma condição genética, a hemocromatose, em que o corpo já absorve ferro demais. Ferro só com exame.
Outros exemplos
Vitamina A em excesso pode ser tóxica, principalmente na gestação. Vitamina B6 em doses altas por muito tempo pode causar alterações nos nervos.
Interações e exames alterados
Suplemento também interage:
- Cálcio e ferro atrapalham a absorção do remédio da tireoide se forem tomados juntos.
- Biotina, presente em muitos produtos para cabelo e unhas, pode alterar resultados de exames laboratoriais, incluindo TSH e T4 livre, e levar a diagnósticos errados. Avise o médico e o laboratório se usar.
- Erva-de-são-joão interage com diversos medicamentos, inclusive anticoncepcionais.
- Vitamina K interfere na ação de anticoagulantes como a varfarina.
Por isso, na consulta, vale levar a lista completa, com nomes e doses, de tudo que você toma.
E os suplementos "para emagrecer"?
Termogênicos, “queimadores de gordura”, chás e cápsulas milagrosas não têm evidência de perda de peso relevante e sustentada. Alguns produtos irregulares já foram encontrados com substâncias de remédios escondidas na fórmula, e a ANVISA emite alertas sobre esse tipo de produto. O tratamento do excesso de peso passa por alimentação, treino, sono e, quando indicado, medicação prescrita e acompanhada.
Quando procurar uma endocrinologista
- Você toma vários suplementos por conta própria e não sabe se precisa deles.
- Você tem cansaço persistente e quer saber se há alguma deficiência.
- Você fez cirurgia bariátrica, usa metformina há muito tempo ou tem alimentação vegetariana.
- Seus exames da tireoide mudaram sem explicação e você usa biotina.
- Você está usando produtos "para emagrecer" sem prescrição.
Como a Dra. Karline Campos conduz isso na prática
Na consulta, a Dra. Karline Campos revisa todos os suplementos em uso, com dose e motivo, e confere se existe indicação real para cada um. Os exames são pedidos de acordo com a história e os fatores de risco. O que tem indicação continua, com dose e tempo definidos, e o que não tem é suspenso. Nos retornos, os níveis são reavaliados para ajustar o plano.
Dra. Karline Campos, endocrinologista · CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357
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Perguntas frequentes
Todo mundo precisa tomar vitamina D?
Não. A vitamina D tem indicação em quem tem deficiência ou fatores de risco específicos. A diretriz de 2024 da Endocrine Society não recomenda dosagem de rotina em adultos saudáveis com menos de 75 anos.
Suplemento natural não faz mal?
Faz, dependendo da dose e da combinação. Natural não é sinônimo de seguro, e vários suplementos interagem com remédios.
Multivitamínico vale a pena?
Para quem tem alimentação variada e nenhuma deficiência, geralmente não traz benefício comprovado. Pode ter indicação em situações específicas, como depois da cirurgia bariátrica.
Posso tomar suplemento para emagrecer?
Não há evidência de que funcionem de forma relevante, e alguns produtos irregulares podem conter substâncias perigosas. O ideal é tratar o excesso de peso com acompanhamento médico.
Preciso parar os suplementos antes de fazer exames?
Alguns, como a biotina, podem alterar os resultados. Pergunte ao médico antes de colher os exames.
Referências
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC nº 243/2018, sobre os requisitos sanitários dos suplementos alimentares.
- Demay MB et al. Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2024.
- Manson JE et al. Vitamin D supplements and prevention of cancer and cardiovascular disease. New England Journal of Medicine, 2019.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Resultados variam de pessoa para pessoa.
Neste artigo
Dra. Karline Campos
Endocrinologista titulada pela AMB. CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357
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