Hormônios e Menopausa
Hipotireoidismo: sintomas, diagnóstico e tratamento
Por Dra. Karline Campos, endocrinologista · 10 min de leitura
Hipotireoidismo é a condição em que a tireoide produz menos hormônio do que o corpo precisa. Os sintomas mais comuns são cansaço, sensibilidade ao frio, pele seca, intestino preso, queda de cabelo, dificuldade de concentração e ganho discreto de peso. O diagnóstico é feito com exames de sangue (TSH e T4 livre), e a causa mais frequente no Brasil é a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune. O tratamento é a reposição do hormônio tireoidiano, com ajuste de dose individualizado.
Em resumo
- A tireoide regula a velocidade do metabolismo; no hipotireoidismo, tudo fica mais lento.
- Sintomas: cansaço, frio, pele seca, prisão de ventre, queda de cabelo, inchaço, lentidão de raciocínio, ciclos irregulares, colesterol alto.
- Diagnóstico: TSH elevado com T4 livre baixo (hipotireoidismo clínico) ou T4 livre normal (subclínico). Anticorpos anti-TPO indicam Hashimoto.
- O hipotireoidismo causa ganho de peso modesto, em geral poucos quilos, boa parte por retenção de líquido. Ele não explica obesidade sozinho.
- O tratamento é a levotiroxina, tomada em jejum, com dose ajustada pelo TSH a cada 6 a 8 semanas até estabilizar, e depois anualmente.
O que a tireoide faz
A tireoide é uma glândula em forma de borboleta na base do pescoço. Ela produz dois hormônios, o T4 e o T3, que funcionam como o “acelerador” do metabolismo: regulam a velocidade com que as células gastam energia, a temperatura corporal, os batimentos cardíacos, o funcionamento do intestino, a memória e até o ciclo menstrual.
Quem comanda a tireoide é a hipófise, uma glândula no cérebro, por meio do TSH (hormônio estimulante da tireoide). Quando a tireoide produz pouco hormônio, a hipófise aumenta o TSH para tentar estimulá-la. Por isso, no hipotireoidismo, o TSH sobe.
Sintomas do hipotireoidismo
Como o hormônio tireoidiano age em todo o corpo, os sintomas são variados e, no início, sutis:
- Cansaço e sonolência, mesmo dormindo bem.
- Sensibilidade ao frio.
- Pele seca, cabelo quebradiço e queda de cabelo difusa, unhas fracas.
- Intestino preso.
- Inchaço, principalmente no rosto e nas pálpebras.
- Ganho discreto de peso.
- Lentidão de raciocínio, dificuldade de concentração e memória, humor deprimido.
- Voz mais rouca.
- Batimentos cardíacos lentos.
- Colesterol elevado sem explicação.
- Ciclos menstruais irregulares ou intensos, dificuldade para engravidar.
- Dores musculares e articulares, cãibras.
- Queda do terço externo das sobrancelhas (sinal clássico, mas nem sempre presente).
Nenhum desses sintomas é exclusivo do hipotireoidismo. Muitos se confundem com depressão, menopausa, anemia e falta de sono. É por isso que o diagnóstico depende dos exames.
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Causas: Hashimoto e outras
Tireoidite de Hashimoto. É a causa mais comum em regiões com iodo suficiente, como o Brasil. O sistema imunológico produz anticorpos contra a própria tireoide (principalmente o anti-TPO), causando inflamação crônica e destruição gradual da glândula. É muito mais frequente em mulheres, costuma ter histórico familiar e pode estar associada a outras doenças autoimunes, como vitiligo, doença celíaca e diabetes tipo 1.
Outras causas:
- Cirurgia de retirada da tireoide ou tratamento com iodo radioativo.
- Medicamentos, como amiodarona, lítio e algumas imunoterapias.
- Deficiência ou excesso de iodo.
- Hipotireoidismo congênito.
- Problemas na hipófise (hipotireoidismo central), mais raros.
- Tireoidite pós-parto, geralmente transitória.
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Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é laboratorial:
- TSH. É o exame mais sensível. No hipotireoidismo, está elevado. A faixa de referência da maioria dos laboratórios fica entre cerca de 0,4 e 4,5 mUI/L, com variação.
- T4 livre. É o hormônio produzido pela tireoide. No hipotireoidismo clínico, está baixo; no subclínico, ainda está normal.
- Anti-TPO (e às vezes anti-tireoglobulina). Anticorpos que confirmam a origem autoimune (Hashimoto). Ter anticorpos positivos com TSH normal não é hipotireoidismo, mas indica maior risco de desenvolver no futuro e justifica acompanhamento.
- Ultrassom de tireoide. Não é necessário para diagnosticar hipotireoidismo. É pedido quando há nódulo palpável, aumento da glândula ou achados que exigem avaliação.
Hipotireoidismo subclínico é quando o TSH está elevado, mas o T4 livre ainda é normal. É comum, muitas vezes sem sintomas, e nem sempre precisa de tratamento. A decisão depende do valor do TSH (acima de 10 costuma justificar tratamento), da presença de anticorpos, de sintomas, da idade, de gestação ou desejo de engravidar, e de fatores cardiovasculares. Um TSH discretamente elevado deve ser repetido antes de qualquer decisão, porque pode normalizar sozinho.
Hipotireoidismo e peso: mitos e fatos
Este é o ponto que mais gera expectativa errada.
Fato: o hipotireoidismo não tratado reduz o gasto energético e favorece retenção de líquido. O ganho de peso associado costuma ser modesto, na faixa de poucos quilos, e boa parte é água, não gordura.
Mito: “engordei 15 kg por causa da tireoide”. Um hipotireoidismo grave, não tratado por muito tempo, pode contribuir para um ganho maior, mas essa situação é incomum hoje. Na maioria dos casos, a tireoide contribui pouco e o ganho tem outras causas, como resistência à insulina, sono, alimentação e menopausa.
Fato: tratar o hipotireoidismo devolve o metabolismo ao normal, mas não emagrece por si. Quem já está com o TSH controlado e continua com dificuldade para emagrecer precisa investigar outras causas.
Mito: “tomar hormônio de tireoide ajuda a emagrecer”. Usar levotiroxina, ou T3, em quem não tem hipotireoidismo, ou em dose acima da necessária, é perigoso: causa arritmia, perda de massa óssea, perda de músculo e ansiedade. Não é tratamento para obesidade e não é praticado por endocrinologistas.
Na clínica, a calorimetria indireta ajuda a mostrar o gasto energético real de quem tem hipotireoidismo e a avaliação de composição corporal com Evolt 360 separa o que é água, gordura e músculo, o que orienta a conversa sobre peso com dados, não com suposições.
Tratamento: a reposição e o ajuste de dose
O tratamento do hipotireoidismo é a reposição com levotiroxina, uma versão sintética do T4, idêntica ao hormônio natural. É um dos tratamentos mais seguros e bem estabelecidos da medicina, mas exige alguns cuidados:
Como tomar.
- Em jejum, com água, de 30 a 60 minutos antes do café da manhã. Alimentos, café e leite reduzem a absorção.
- Longe de suplementos de cálcio, ferro e antiácidos (pelo menos 4 horas de intervalo).
- Sempre no mesmo horário e, idealmente, com a mesma marca ou fabricante, porque pequenas diferenças de absorção alteram o TSH.
Ajuste de dose.
- A dose inicial depende do peso, da idade, da gravidade e de doenças cardíacas.
- O TSH é repetido de 6 a 8 semanas após cada mudança de dose, porque esse é o tempo para o hormônio atingir equilíbrio.
- O objetivo é um TSH dentro da faixa de referência, com sintomas controlados. Em algumas situações, como gestação, a meta é mais estreita.
- Depois de estabilizado, o TSH é verificado uma vez por ano ou quando surgirem sintomas, mudança de peso importante, gestação ou início de medicamentos que interferem.
Situações que exigem ajuste.
- Gestação: a necessidade de hormônio aumenta já nas primeiras semanas.
- Ganho ou perda de peso significativos.
- Início de menopausa ou de terapia hormonal com estrogênio oral.
- Doenças intestinais que reduzem absorção.
- Mudança de fabricante.
Sintomas persistentes com TSH normal. Uma parcela das pessoas segue com cansaço mesmo com o exame controlado. Nesses casos, investigamos outras causas (ferro, vitamina D, vitamina B12, sono, depressão, menopausa) antes de mexer na tireoide. A combinação de T4 com T3 é uma opção discutida em casos selecionados, com evidência ainda limitada.
Quando procurar uma endocrinologista
- Você tem cansaço, frio, pele seca, prisão de ventre e queda de cabelo sem explicação.
- Seu TSH veio alterado em um exame de rotina.
- Tem mãe, irmã ou avó com problema de tireoide.
- Tem outra doença autoimune (vitiligo, celíaca, diabetes tipo 1, artrite reumatoide).
- Está tentando engravidar ou está grávida e tem alteração de tireoide.
- Toma levotiroxina há anos sem revisar a dose.
- Tem TSH controlado, mas continua com sintomas.
- Tem nódulo ou aumento no pescoço.
Como a Dra. Karline Campos conduz isso na prática
A tireoide é uma das áreas em que mais vejo diagnósticos feitos pela metade: TSH dosado uma vez, dose iniciada e nunca revisada. Na consulta, eu examino o pescoço, peço TSH, T4 livre e anticorpos quando indicado, e interpreto o resultado com o contexto: idade, sintomas, gestação, outros exames. Se a pessoa já trata, reviso como toma o remédio, porque o jejum e o intervalo de outros suplementos mudam tudo. Quando a queixa é o peso, uso a avaliação de composição corporal com Evolt 360 e a calorimetria indireta para separar o que é da tireoide do que é de outra causa, e trato as duas coisas. Atendo poucos pacientes por dia para fazer esse acompanhamento com atenção, nas unidades de Campo Grande, Barra da Tijuca e Recreio, no Rio de Janeiro, e em Indaiatuba, em São Paulo.
Dra. Karline Campos, endocrinologista · CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357
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Perguntas frequentes
Quais são os primeiros sintomas de hipotireoidismo?
Cansaço, sensibilidade ao frio, pele seca, intestino preso e queda de cabelo costumam ser os primeiros. São inespecíficos, por isso o diagnóstico depende do TSH e do T4 livre.
Hipotireoidismo engorda?
Causa ganho modesto de peso, em geral poucos quilos, com boa parte em retenção de líquido. Não explica obesidade sozinho. Tratar a tireoide normaliza o metabolismo, mas quem continua com dificuldade para emagrecer precisa investigar outras causas.
O que é TSH alto?
TSH acima da faixa de referência indica que a hipófise está estimulando a tireoide mais do que o normal, sinal de que ela está produzindo pouco hormônio. Deve ser interpretado junto com o T4 livre e, se discretamente alterado, repetido.
Hashimoto tem cura?
Não. A tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune crônica. Mas o hipotireoidismo que ela causa é totalmente controlável com a reposição hormonal, e a pessoa pode viver com qualidade de vida normal.
Posso parar de tomar levotiroxina se me sentir bem?
Não sem orientação. Sentir-se bem é sinal de que o tratamento está funcionando. Na maioria dos casos de Hashimoto, a reposição é para a vida toda. Suspender faz o TSH subir e os sintomas voltarem em algumas semanas.
Preciso fazer dieta sem glúten se tenho Hashimoto?
Só se tiver doença celíaca ou sensibilidade ao glúten diagnosticada. Para as demais pessoas com Hashimoto, não há evidência consistente de que retirar o glúten melhore a tireoide. A prioridade é a reposição correta, o iodo adequado (sem excesso) e o selênio em níveis normais.
Referências
- Jonklaas J et al. Guidelines for the Treatment of Hypothyroidism. American Thyroid Association (ATA). Thyroid, 2014.
- Garber JR et al. Clinical Practice Guidelines for Hypothyroidism in Adults. ATA/AACE, 2012.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Resultados variam de pessoa para pessoa.
Neste artigo
Dra. Karline Campos
Endocrinologista titulada pela AMB. CRM-RJ 52.87706-9 · RQE 29357
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